quinta-feira, janeiro 29, 2009

Wikipedia = Britannica? Ainda não.

Duas notícias compĺementares repercutiram bastante esta semana: enquanto a enciclopédia Britannica abre-se para a participação do público, a Wikipedia estaria prester a aprovar um novo mecanismo de restrição à ampla colaboração.

Especulações e exageros à parte, apurei algumas informações e proponho uma análise.

As mudanças da Britannica vieram à tona após uma matéria do jornal australiano Sydney Morning Herald, que entrevistou o presidente instituição, Jorge Cauz. Ele deixa claro uma "cruzada" da secular instituição contra a Wikipedia, o que inclui melhorar posicionamento das entradas no Google.

O ponto chave, no entanto, já estava delineado há alguns meses, no post Collaboration and the Voices of Experts, publicado em junho de 2008: a Britannica pretende, ao seu modo, dar mais espaço para novos editores, que chamam de “community of scholars”.

O modelo conceitual deixa claro o papel dos especialistas, que precisam comprovar dados pessoais e certamente devem ter um alto grau de especialização na área (ao contrário da Wikipédia, cuja meritocracia baseia-se no engajamento). Estes novos editores aparentemente terão grande poder de decisão e suas publicações estarão vinculadas aos logins (uma forma de explicitar a autoria).

A mediação rígida deve ao simplificado mecanismo para sugestão de modificações nos verbetes. O recurso Suggest Edit associado às entradas é muito parecido com a ferramenta wiki, aceita submissões sem cadastro prévio e pede apenas o aceite dos Termos de Uso.

Espera-se que atualização de uma informação checada pela equipe da enciclopédia ou por "editores freelance" ocorra em até 20 minutos. As novidades podem ser incorporadas na versão impressa, editada a cada 2 anos.

Atacando o "modismo" da "sabedoria das multidões" e chamando para si a responsabilidade pelo material publicado, a Britannica deixa clara sua adequação à web 2.0:
"we believe that the creation and documentation of knowledge is a collaborative process but not a democratic one"

Já na Wikipédia, a alardeada limitação da colaboração ampla e irrestrita que move o projeto resume-se, no fim das contas, à possibilidade de implementação da extensão "FlaggedRevs" no MediaWiki, software em que se baseia o site.

Este recurso tem inúmeras configurações possíveis, pode ser ativado caso a caso e seria uma alternativa à proteção imposta com frequência em alguns artigos mais visados por vândalos ou guerras de edições. Ao invés do travamento total das edições, seria permitida a edição, mas sua publicação dependeria de uma autorização posterior pelos administradores do site.

O assunto está em discussão desde o ano passado e foi retomado após um apelo de Jimmy Wales na sua página pessoal, motivado especialmente por episódios de "morte antecipada" de personalidades (forma clássica de vandalismo na Wikipédia). O índice de aprovação da proposta (60%) indica baixa aceitação da comunidade de usuários e o tema continua em discussão.

As Flagged editions (termo traduzido como Revisões Assinaladas) foram implementadas de forma experimental em todos os artigos da versão em alemão. De cara, um grande problema: a aprovação do conteúdo chegou a registrar uma demora de 3 semanas. Se implementada em larga escala, tornaria inviável a aprovação das mais de 150 mil edições diárias, como levantou o post do ReadWriteWeb.

Poderia ainda impactar diretamente uma apropriação típica da Wikipédia, a redação "em tempo real" de artigos sobre acontecimentos recentes. É uma faca de dois gumes: ao menos tempo em que impediria uma atualização em "fluxo contínuo", evitaria uma proteção mais restritiva no calor dos eventos, como o próprio Wales registrou em seu apelo (situação que ocorreu, por exemplo, na edição do artigo sobre Vôo TAM 3054, como algumas vezes citei aqui).

Parece-me que estamos diante de um processo de amadurecimento e complexificação da política de edição gerida no site, e não de uma simples guinada da Wikipedia para um modelo mais fechado ou de uma mudança na sua política editorial.

Avalio ainda como uma intensificação de uma tendência repleta de tensões: dar um maior poder aos administradores em prol da manutenção da idéia original de que todos podem editar.

Pesquisador Ed H. Chi, do Palo Alto Research Center, levanta uma questão fundamental no post
Governing and authorship models at Wikipedia and Britannica:
So now the research question is whether you want to design your editing policy to favor the upper class (top editors and administrators), the middle class (the 5000-6000 editors who contribute the middle 50% of all edits), or the lower class (the 15000 editors who contribute the last 25%).
Quer dizer, a questão é quem deve ser privilegiado na "política de edições": os usuários mais ativos, a "classe média" ou os eventuais colaboradores? Chi acredita que independente das "revisões assinaladas", a participação dos usuários eventuais está cada vez mais limitada:
So, even without the "flagged revision" mechanism such as the ones suggested by Jimmy Wales, it has already been getting harder for the lowest class of occasional editors to produce edits that remain as contribution in Wikipedia.
Comparando os dois processos em cursos, não consigo imaginar, a médio prazo, uma efetiva aproximação entre a Britannica e a Wikipédia, principalmente pelas filosofias editoriais claramente distintas. Em ambas colaboração e mediação andam juntas, mas de formas distintas.

Posts relacionados:

Hierarquia e Cauda Longa na Wikipédia

Morto ou não? Boatos na Wikipédia, twitter e jornalismo

Knol e a colaboração moderada

terça-feira, janeiro 27, 2009

Jornalismo de links e os limites da concorrência

Uma empresa indica um produto do concorrente, e este a processa?

Estranho, não?

É o que está acontecendo nos EUA, onde o grupo GateHouse Media entrou na justiça contra a New York Times Co. com a alegação de violação de copyright e propaganda enganosa, entre outras irregularidades.

Tudo isso porque um dos jornais que pertencem ao NYT, o The Boston Globe, tem republicado chamadas e leads (seguidos de links para a matéria original) de um site local do grupo GateHouse, o Wicked Local.

Os acusados defendem-se argumentando que o Boston.com (site hiperlocal do The Boston Globe) é um agregador de conteúdos sobre a cidade e a indicação de links é uma das práticas mais comuns da internet, a começar pela busca Google e por blogs.

A disputa parece-me mais um capítulo da disputa entre a velha e a nova mídia - no caso, entre velhas empresas e seus esforços e limitações de adequação aos novos tempos.

Ao ler sobre o caso me lembrei dos processos movidos contra o agregador Google News pela Agência France Press e pelo grupo belga Copiepresse, que o acusaram de violação de direitos autorais.

Para "resolver" a questão, o Google deixou de indexá-los - um tiro no pé do departamento jurídico das duas empresas! (no caso da AFP, houve um acordo em 2007).

Vale a leitura detalhada do post A Danger to Journalism, do Machine 2.0. Um trecho sobre a importância do link:

Links are the bloodstream of the web, carrying its oxygen. Links are how original journalism will get audience, traffic, branding, attention, credit, and monetization. Links are a gift and a courtesy. Links are the means to better-informed communities. (...) Links are also the key to specialization and efficiency; they will allow a local publication to do local well and link to other stories rather than rewriting them: Do what you do best, link to the rest.


Separei mais algumas indicações sobre o assunto, que muito me interessa:

Sobre a tendência de linkar sites de empresas concorrentes: Extra, Extra! O “tabu da concorrência” foi quebrado.

Ainda em português, Organizações aderem ao "jornalismo de links" e Jornalismo interativo: links não bastam.

Um blog muito bacana sobre o tema é o Publish 2.0 - The (R)Evolution of Media. Está lá uma apresentação do que é Link Journalism - há inclusive uma ferramenta para isso.

Alguns posts que destaco:

Digital Transition: From Redundant News Coverage To Original Link Journalism

Permanent Link to Networked link journalism: A revolution quietly begins in Washington state

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Artigo "Wikis e o hipertexto colaborativo"

Está no ar o volume 2 da revista digital Hipertextus, mantida pelo Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologia Educacional (NEHTE) da UFPE.

Entre os 12 textos selecionados (relação abaixo), está um artigo meu: Wikis e o hipertexto colaborativo.

RESUMO: Aproximando os estudos sobre hipertexto digital e conceito de Web 2.0, este artigo pretende apresentar e discutir as potencialidades da ferramenta wiki para novas práticas de leitura, redação e edição de textos. Entre as características dos wikis, destacamos a potencial redação coletiva e colaborativa de textos, possibilitada através das interações estabelecidas pelos usuários.

Trata-se de uma reflexão conceitual a partir de leituras na área de Linguística. Foi o ponto de partida para textos e posts já publicados (como o artigo
Retextualização "em tempo real" na Wikipédia: a edição coletiva dos artigos sobre o vôo TAM 3054) e outros "em gestação".

Artigos e resenhas do volume 2 da revista Hipertextus (2009)

A pesquisa on-line: potencialidades da pesquisa qualitativa no ambiente virtual
Conrado Moreira Mendes

A imagem digital interativa: características, atribuições e potencialidades na didática de línguas estrangeiras
Maria do rosário Ferraz Sailler
Análise do discurso instrucional em ambiente virtual de aprendizagem
Sérgio Roberto Costa
Do impresso à ciberpublicidade: os percursos do leitor no advento da virtualidade
Ivandilson Costa
Hipertexto: o desempenho do leitor
Valéria Cristina Bezerra
A autoria no hipertexto: uma questão de dispersão
Evandra Grigoletto
A CLP como canal de interação. Uma análise dos fóruns on-line da clp à luz dos requisitos de habermas
Tenaflae Lordêlo
Wikis e o hipertexto colaborativo
Carlos Frederico de B. D'andréa
Rizoma e hipertexto em nove, novena, de Osman Lins análise da narrativa um ponto no círculo
Tatiana gomes leandro matzenbacher
E-mail e blog: “gêneros textuais” ou veículos de comunicação?
Tiago da Silva Ribeiro
Resenha
gee, james paul. what video games have to teach us about learning and literacy. new york: palgrave macmillan, 2004.

Carla Viana Coscarelli
Resenha
waters, lindsay. inimigos da esperança. publicar, perecer e o eclipse da erudição. trad. luiz henrique de araújo dutra. são paulo: unesp, 2006. 96p.
Pesquisando com o inimigo

Ana Elisa Ribeiro

sábado, janeiro 10, 2009

Viabilidade de projetos web (em tempos de crise) - Links

Nos últimos dias me chamaram a atenção várias discussões sobre modelos de negócios para publicações impressas e digitais. Não é uma conversa nova, sabemos, mas acho que ganha um tempero especial no início de um ano que é certo o agravamento da crise financeira.

Seguem alguns links:

Ohmynews International anunciou que vai enxugar o modelo de remuneração dos repórteres-cidadão: passam a receber pagamentos apenas a matéria que mais gerar "buzz" durante o mês e outras duas escolhidas pelos editores (antes, todos os autores destacados na home recebiam uma contribuição simbólica). Para a Ana e o Rafael, no De Repente e Libellus, a mudança não deve impactar diretamente o processo de colaboração, que é motivado por razões não-econômicas.

Na contramão da crise, a Wikimedia Foundation conseguiu arrecadar, de mais de 125 mil doadores, os 6 milhões de dólares necessários para o funcionamento do primeiro semestre de 2009. A campanha ganhou fôlego após um apelo pessoal do fundador, Jimmy Wales. Para fontes da matéria Wikipedia's Fundraising Miracle, trata-se de uma situação alavancada pela crise e pela eleição de Obama, que alertaram as pessoas para a necessidade de ajudar e assumir projetos que consideram realmente importantes.

Como afirmou o Paulo Querido, "trata-se, provavelmente, da maior acção de crowdfunding jamais realizada". Crowdfunding, segundo a página "oficial" do termo (que teria sido expulso da Wikipedia), é um modelo de financiamento baseado na organização coletiva e em rede de interessados no projeto. Seus impactos no jornalismo são discutidos no texto Can Crowdfunding Help Save the Journalism Business?, que encontrei na reflexão do Trasel sobre o futuro do ... jornalismo.

Desde Portugal, Miguel Caetano propõe um novo modelo de negócios para o Remixtures, um dos melhores blogs sobre indústria da música e novas tecnologias. O conteúdo do blog continua sendo, claro, gratuito, mas artigos originais, em português ou inglês, a serem encomendados para diversos fins, passam a ter preço tabelado. Proposta ousada e polêmica (não deixe de ler os comentários), mas bem interessante.

E, claro, continua-se discutindo o fim do jornal impresso, o enxugamento das redações, a migração para o digital etc. Dois textos interessantes:

The economics of moving from print to online: lose one hundred, get back eight | Monday Note

End Times - Can America’s paper of record survive the death of newsprint? Can journalism?

domingo, janeiro 04, 2009

Morto ou não? Boatos na Wikipedia, twitter e jornalismo

2008 terminou com mais uma mini-polêmica em torno da Wikipédia: no dia 28 de dezembro a versão em inglês foi atualizada com a informação da morte do ator Paul Reiser. Pouco conhecido noBrasil (sua atuação mais marcante foi na série Mad About You, nos anos 90), Reiser teria morrido no Rio Squallahasse, onde praticava “fly fishing”.

Fiz pesquisas sobre a publicação (e apagamento) da informação na Wikipédia, a discussão em sobre a veracidade ou não no Twitter e a repercussão em sites noticiosos. Valem alguns comentários:

- A primeira informação na Wikipédia sobre a suposta morte foi a inclusão da data de falecimento (12/27/2008) no infobox do artigo sobre Paul Raiser. A data foi retirada dois minutos depois; em quatro minutos acrescentaram-se informações sobre o acidente fatal e, em menos de um minuto, a frase foi retirada.

Sucede-se então uma guerra com mais de trinta edições entre 27 de dezembro e 02 de janeiro, quase sempre com usuários não cadastrados (identificados pelos IPs 206.53.144.121 e 68.40.80.155, entre outros) acrescentando dados da morte para, em seguida, serem desmentidos por outros, cadastrados ou não.

Entre mudanças do tipo “was an actor” e “is an actor”, destacaram-se dois comentários, no meio do artigo, defendendo a sobrevivência do autor: “paul reiser is alive!!!” e “I spoke to Paul Reiser today and he say he's not dead yet (…)”. Foram devidamente apagados nas edições seguintes.

Surpreende aqui que nenhum administrador tenha restriguido a edição dos artigos, por exemplo impedindo a edição por usuários não-cadastrados.

- Aparentemente o primeiro noticioso online a reportar a “barriga” foi o site de entretenimento EOnline, com a nota Paul Reiser Rises From Wikipedia Death, publicada no dia 31/12 e pouco depois reproduzida no Yahoo! News.

O tom, como sempre, é ironia e questionamento à confiabilidade da enciclopédia wiki. Sequer há resultados no Google para "Squallahassee River", criticou a matéria da EOnline e do Huffington Post. Mais um rumor da "gossipsphere" (algo como fofocosfera), disse um repórter do Post Chronicle, para em seguir decretar, em negrito: Wikipedia is not a credible source people.

Também chama a atenção do desconhecimento de como um wiki e a Wikipédia operam. Segundo o texto da EOnline,
It's unclear exactly when the entry was tinkered with or how long it had been up, but less than two hours after it made for blogosphere fodder, the offending passage, along with the actor's supposed date of death, was removed.
Isto é, o repórter desconhece o recurso Histórico da ferramenta wiki, que vem a ser um dos grandes mecanismos de transparência (e, por que não, segurança) para sites tão abertos quanto a Wikipédia.

- Antes do canal do Eonline no Twitter replicar a nota publicada no site, a informação já circulava na twitosfera (que talvez tenha sido a fonte para a nota jornalística, já as reversões na Wikipédia em geral não tardaram).

Aparentemente o usuário snakeproof foi o primeiro a disseminar a informação no Twitter. Coincidência ou não, seus updates estão protegidos, mas há ocorrência de respostas a um tweet seu. Sidebeer escreveu no dia 27/12, "dia da morte" de Paul Reiser:
@snakeproof I'm almost certain Paul reise r is alive.

Pouco depois, BenMarvin anunciou ter editado o artigo na Wikipédia:

@snakeproof I just edited Paul Reiser's Wikipedia article to let the worl d know he's dead

O comportamento deste usuário mostra a força que um boato pode ganhar através das redes sociais, não importando a falta de informações concretas para confirmá-lo. Já no dia 31, alheio às informações ao contrário, escreveu:
Absolutely nothing around me indicates that Paul Reiser is still alive. I will continue to edit Wikipedia.
Como assim nada indica que o ator está vivo?

Havia alguma prova de que estaria morto??

2009 promete muitas guerras de informação...

Post relacionado: Sobre abarriga do IReport: quem, afinal, vai fazer jornalismo?