segunda-feira, março 09, 2009

Criticando a Enciclopedia (como fazem com a Wikipedia...)

Uma das vertentes principais de meu estudo de doutorado é identificar qual a relação entre processos editoriais tradicionalmente estabelecidos (produção de livros ou jornais, por exemplo) com a dinâmica de produção de textos na Wikipedia.

Por isso, ando lendo alguns coisas de História Cultural - neste momento, O Iluminismo com Negócio, uma pesquisa monumental de Robert Darnton sobre os desdobramentos da publicação da Enciclopédia, obra pioneira coordenada por Diderot e D’Alembert.

Darnton apresenta um documento interessatíssimo - um relatório posterior de Diderot avaliando o projeto que lhe tomou mais de 20 anos e, em 1768, estava prestes a ser relançando por outro editor, Panckoucke.

As críticas que reproduzo abaixo caberiam muito bem na boca dos mais ferrenhos críticos da Wikipédia - mais um sintoma de como os fatos e as discussões se repetem ao longo dos séculos.

Negritei os trechos que me parecem mais "atuais" (que fique claro, não indicam necessariamente minha opinião):

A obra fora prejudicada, explicou, pela mediocridade de seus colaboradores – e apontou seus nomes, juntamente com as vastas seções da Enciclopédia por eles maculadas. Alguns dos colabores eram incompetentes. Outros haviam pago a escritores medíocres. E esses verbetes malfeitos tornavam incongruentes os de boa estirpe. Não existia homogeneidade na qualidade do texto, e a coordenação na alocação das tarefas fora péssima. Assim, temas importantes haviam sido omitidos porque alguns colaboradores que outros os estavam escrevendo, as remissões recíprocas dos eventos haviam sido esquecidas e o texto não fora cuidadosamente relacionado às ilustrações. Diderot não teve papas na língua; a Enciclopédia era caótica: “A Enciclopédia foi um sorvedouro, no qual esses perfeitos trapeiros lançaram desordenadamente uma infinidade de coisas mal digeridas, boas, más, detestáveis, verdadeiras, falsas, incertas, e sempre incoerentes e discordantes”.

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