sábado, agosto 23, 2008

Incidente na Fale/UFMG: jornalismo tradicional X colaborativo

O fato: por volta das 20h do dia 20 de agosto, um estudante entrou na Faculdade de Letras da UFMG e pediu para conversar a sós com uma professora do curso de extensão e aluna de mestrado, pela qual estaria apaixonado. Disparou dois tiros supostamente contra a professora e um contra a própria cabeça. Foi levado em estado gravíssimo para o hospital, onde faleceu.

A cobertura: poucas informações foram publicadas nos portais sediados em BH na noite do incidente. No portal UAI, uma nota muito simples publicada no fim da noite de quinta foi a matéria principal pelo menos até as 12h do dia seguinte (veja a reprodução em outro site, já que foi impossível localizá-la no site original).

O grande destaque do portal nas primeiras horas foi um relato publicado no projeto colaborativo Eu Não Tenho Nome, pela estudante de Letras de UFMG (e jornalismo na PUC-MG) Flávia Denise. A aluna (que mantém um interessante blog sobre livros) nos explicou o processo de apuração e redação da sua contribuição cidadã para o site, num relato que, acredito, é revelador das práticas colaborativos nos portais brasileiros.

Editei minimamente o e-mail gentilmente enviado por ela e, após, aponto algumas questões que me chamaram a atenção.
Eu estava na aula na FALE (Faculdade de Letras) quando desci para o intervalo com um amigo, que dá aula de alemão pelo Cenex, quando vi que tinha carros de polícia e ambulância na frente do prédio. Nós fomos descobrir o que tinha acontecido e perguntamos para o porteiro, que estava muito abalado e só soube dizer que eu ex-aluno tinha tentado suicídio.

Isso apenas nos deixou mais curiosos.. Ele brincou que como estudante de jornalismo eu deveria tentar descobrir tudo e fomos até o carro da polícia ver se alguém falava conosco. No caminho ele encontrou outra amiga, também professora pelo cenex, que estava em prantos. Perguntamos o que tinha acontecido e ele contou que estava dentro da sala quando tudo aconteceu. Conversamos com ela e quando ela foi embora, esse meu amigo disse que ele tem um escaninho na sala do cenex e perguntou se eu queria tentar entrar e ver o que tinha acontecido. Eu topei e nós fomos.

Chegando no quarto andar conversamos com os políciais e ficamos sabendo que nem mesmo os estagiário que tinham deixado até mesmo suas carteiras nos escaninhos não poderiam pegá-las. Eles haviam isolado parte do corredor e perto do cordão de isolamento havia um grupo de estagiário do cenex conversando sobre a Polyana, o João e tudo que tinha acontecido. Meu amigo já tinha me contado que João persegui a a moça, mas com eles eu consegui uma comprovação. Todos contavam casos de momentos em que a perseguição de João havia passado dos limites. Até esse momento não pensava em escrever nada sobre o ocorrido, sou estudante e não posso escrever para nenhum veículo, só pensei nisso depois, quando tudo acabou.

Um desses estagiários estava dando aula na sala ao lado e contou sobre o que ouviu. Ele acabou entrando na minha materinha. Quando eu percebi que nenhuma informação diferente iria sair dali, tirei algumas fotos com meu celular e fui para casa.

Quando cheguei em casa liguei para o meu namorado que é jornalista do eu não tenho nome. Ele está trabalhando a noite para cobrir as olimpíadas essas semanas então estava lá na redação. Contei o que aconteceu e falei que eu ia escrever algo sobre isso e postar no site. Ele concordou e disse que era uma boa ideia. Nesse momento o uai já tinha uma pequena nota sobre o ocorrido, mas estava superficial, cheia de informações erradas.. Escrevi e postei a matéria e o João colocou um link dela na página da matéria oficial. O que escrevi não foi editado, mas quando saiu o nome completo dos envolvidos eu pedi que o João Renato colocasse na minha matéria. Outra mudança foi que eu coloquei que o atirador era paraplégico logo no começo da matéria, ele sugeriu que entrasse depois. Eu mesma fiz essa mudança.


Algumas questões
: o que mais me chamou a atenção foi a pequena (ou nenhuma) interação entre o texto produzido pela colaboradora e pela redação do portal. Durante horas os dois textos permaneceram linkados, mas as informações apuradas pela estudante não foram acrescidas ao material da redação.


Uma contradição inclusive confundia os leitores: a mulher atacada era professora ou aluna? Era aluna e professora, descobri agora no relato da Flávia.

Falta de confirmação dos dados não pode ser uma desculpa, já que, repito, os textos estavam linkados (o link, sabemos, a maior prova de reputação da web).

O jornalismo tradicional e colaborativo devem ser pensados de forma complementar, não?

E outros portais locais, como cobriram o fato? O portal d'O Tempo manteve durante horas uma nota tão incompleta que, como afirmou o Bernardo, é digna de registro em aulas de JOL.

O Hoje em Dia, de site novo, nada noticiou.

5 comentários:

Baiano disse...

Dá-lhe jornalismo cidadão! o//

Não vi nada sobre esse suicídio até ler no seu blog. E até hoje não se tem muitas informações...

Taís Oliveira disse...

Eu sou da sala da Flávia em ambas as faculdades (Jornalismo e Letras). No dia não fui na UFMG, mas meu namorado chegou aqui em casa desesperado pq ficou sabendo que estava tendo tiros na FALE. Ficamos procurando informações por todos os meios possíveis de mídia tradicional e só descobrimos o q aconteceu qdo conseguimos ligar para a Flávia.
O que vc ressaltou é mto relevante, pois muitos sites (até grandes portais) se dispõem a fazer jornalismo colaborativo, mas de um jeito separado, a parte do jornalismo tradicional, enquanto ele deveria ser pensado de uma maneira que complementasse e melhorasse o jornalismo como um todo. Ao invés de usarem as informações da Flávia para esclarecer a matéria, eles apenas deixaram ela num espaço separado. Pq não unir a "credibilidade" do jornalismo tradicional com relatos in loco de não-profissionais (nem sempre) em busca de um jornalismo mais informativo?
Acho que seria mto trabalho para o jornalista que fica sentado na frente do computador usando só o telefone se dar ao trabalho de ler a matéria e/ou contatar a Flávia...

suzana disse...

Nossa, Carlos, eu estou completamente passada com o que aconteceu na FALE... É uma realidade tão próxima que fica até difícil de acreditar, não é?
E o fato da cobertura do caso ter sido completamente desencontrada só piora os fatos. Realmente não tinha nada muito esclarecedor em nenhum jornal. As informações mais completas que tive foram justamente de pessoas que estiveram na Fac... E que são exatamente as mesma que a Flávia publicou.
Imagina se isso tivesse acontecido nos EUA, seria manchete de todos os jornais do mundo. O q tb acho um exagero. Nem 8 nem 80.
O caso realmente é um prato cheio para aulas!
Um abraço!

Fernanda Torquato disse...

oi Carlos, como vc visitou meu blog, vim retribuir. Muito legal seu blog, digamos que tem conteúdo!
Fiquei impressionada com o descaso da mídia em geral, pelo caso na UFMG e principalmente com o fato de o site nao ter nem lido a matéria da Flávia, mas ter linkado, como assim? estão perdendo credibilidade com isso...

Cláudia Castelo Branco disse...

aprendi que quanto mais próxima da fonte a notícia estiver, maior credibilidade ela vai ter. Infelizmente essa máxima foi esquecida por alguns.